Introdução

  • Esta secção descreve as estratégias de vigilância da cólera em unidades de vigilância onde não existe um surto de cólera provável ou confirmado, para garantir a detecção precoce de um potencial surto. 
  • Uma unidade de vigilância corresponde ao nível administrativo mais baixo, em que são tomadas decisões para desencadear medidas de prevenção e controlo da cólera e em que os resultados da vigilância são utilizados para informar as intervenções locais de saúde pública. O nível administrativo correspondente é específico do país (por exemplo, Nível administrativo 2 ou Nível administrativo 3). 

Definições

Diarreia aquosa aguda 

  • Uma doença em que: 
    • Aguda é definida como aquela que dura menos de sete dias 
    • quosa é definida como fezes líquidas sem sangue que podem conter muco 
    • Diarreia é definida como três ou mais fezes moles num período de 24 horas 

Caso suspeito de cólera 

  • Na ausência de um surto de cólera provável ou confirmado, um caso suspeito de cólera é uma pessoa com dois anos ou mais: 
    • com diarreia aquosa aguda e desidratação grave; 
      ou
    • que tenha morrido por diarreia aquosa aguda, sem outra causa de morte conhecida.
  • Os doentes com desidratação grave apresentam:
    • um ou mais sinais de perigo:
      • letárgico ou inconsciente 
      • pulso ausente ou fraco 
      • dificuldade respiratória 
        or
  • pelo menos, dois dos seguintes: 
    • olhos encovados 
    • não consegue beber ou bebe mal 
    • o beliscão na pele regressa muito lentamente 

Surto suspeito de cólera 

  • Um surto suspeito de cólera é detetado quando:
    • Dois ou mais casos suspeitos de cólera 
      ou
    • Um caso suspeito de cólera com um resultado positivo de TDR (RDT+) 
      é reportado na mesma unidade de vigilância num período de sete dias. 

Surto provável de cólera 

  • Um surto provável de cólera corresponde a uma situação em que, com base nos resultados do TDR, existe uma elevada confiança de que está a ocorrer um surto de cólera. 
  • A detecção de um provável surto através de TDR – sem esperar pela confirmação laboratorial – permite a rápida implementação de medidas de resposta à cólera para conter o surto, antes que se torne generalizado. 
  • Um surto provável de cólera é detectado quando o número de casos suspeitos de cólera com resultado positivo no teste de diagnóstico rápido (RDT+), nos últimos 14 dias, atinge ou ultrapassa um limite definido, tendo em conta o número de casos suspeitos testados (ver Tabela 1). 

Tabela 1. Detecção de um surto provável de cólera com base nos resultados dos RDT+  

PG 5

Principais estratégias de vigilância

  • Na ausência de um surto de cólera provável ou confirmado, a vigilância visa detectar, investigar e responder rapidamente a qualquer surto potencial, para conter a sua propagação.. 

Detecção e notificação dos casos 

  • São utilizados três fluxos de vigilância complementares para detetar casos de cólera: vigilância baseada em unidades de saúde, vigilância baseada na comunidade e vigilância baseada em eventos (informações não estruturadas, como rumores, conteúdos dos media ou relatórios de organizações não governamentais, membros da comunidade, etc.). 
  • São recolhidos dados padrão sobre todos os casos suspeitos de cólera detectados em unidades de saúde e ambientes comunitários. Consultar o Anexo 2, para obter um modelo de formulário de notificação de caso de cólera, o Anexo 3 para um modelo de lista linear de cólera e o Anexo 4 para um modelo de formulário de relatório de vigilância baseada na comunidade. 
  • Os dados padrão sobre casos suspeitos de cólera são comunicados às autoridades de saúde no prazo de 24 horas. 
  • Se não for detectado nenhum caso suspeito de cólera, a ausência de casos será reportada semanalmente (i.e., notificação zero). 

Testagem 

  • Testar todos os casos suspeitos de cólera. 
  • Se existirem TDR disponíveis: 
    • Testar todos os casos suspeitos de cólera por TDR 
      e
    • Recolher amostras de fezes de todos os doentes RDT+ e enviá-las para um laboratório de referência, para testes confirmatórios (cultura/PCR) (ver Secção 2 – Confirmação do surto). 
    Se não existirem TDR disponíveis: 
    • Recolher amostras de fezes de todos os casos suspeitos de cólera e enviá-las para um laboratório de referência, para confirmação microbiológica (ver Secção 2 – Confirmação de surto). 
    Lembrar que:  
    • Os TDR podem ser utilizados para excluir a cólera, mas não podem ser utilizados para confirmar casos individuais de cólera. Contudo, os resultados de múltiplos TDR permitem a detecção precoce de um surto provável de cólera. 
    • A gestão clínica dos casos de cólera é orientada pelo grau de desidratação do doente e não requer qualquer resultado de teste. 
  • Comunicar os resultados do TDR às autoridades de saúde e ao laboratório, caso a amostra seja para lá enviada. As autoridades de saúde necessitam dos resultados do TDR para tomar medidas e adaptar a resposta a um surto; o laboratório tem em conta os resultados do TDR no terreno, durante os seus próprios testes. 

Investigação de casos 

  • Se for detectada um surto provável ou suspeito de cólera numa unidade de vigilância, as investigações do caso serão conduzidas no início do surto. 
  • As autoridades de saúde entrevistam os doentes para classificar os casos por origem geográfica da infecção (i.e., casos adquiridos localmente ou importados) e gerar hipóteses sobre potenciais exposições e fatores de risco. 
  • As investigações de casos centram-se nos cinco dias anteriores ao início da doença, e os resultados devem ser utilizados para orientar as investigações no terreno. Consultar o Anexo 5, para um modelo de formulário de investigação de casos de cólera.  

Investigação no terreno

Calendários e objetivos 

  • Se as investigações de casos não concluírem com certeza que todos os casos suspeitos foram importados, é iniciada rapidamente uma investigação no terreno, de preferência no prazo de 24 horas. 
  • A investigação no terreno é uma avaliação in loco da situação do surto, que visa identificar potenciais fontes de contaminação e contextos de transmissão, bem como fatores de risco para a disseminação. 
  • A investigação no terreno deve ser combinada com uma avaliação inicial das necessidades e a implementação de medidas de controlo iniciais (ver Anexo 6, ​​para uma investigação no terreno e uma lista de verificação para a resposta inicial). 

Equipa de investigação 

  • A investigação no terreno é conduzida por uma equipa multissectorial. O ideal é que a equipa inclua um especialista clínico com experiência na gestão de casos de doentes com cólera, um epidemiologista, um especialista em água e saneamento, um especialista em prevenção e controlo de infeções, um especialista em mobilização social, envolvimento comunitário e comunicação de riscos, e um técnico de laboratório, para apoiar e formar a equipa laboratorial local e supervisionar a recolha de fezes de casos suspeitos. 
  • Todos os membros da equipa de investigação devem estar cientes dos elementos a investigar e dos procedimentos para confirmar ou excluir um surto, devendo adoptar uma abordagem multidisciplinar. 
  • A equipa deve trabalhar rapidamente e comunicar as suas conclusões – incluindo os riscos e as necessidades avaliadas – aos decisores, o mais rapidamente possível, de forma a fornecer uma resposta rápida e focada. 
  • As equipas devem levar equipamento suficiente para recolher e transportar amostras de fezes, tratar quaisquer doentes presentes no local, garantir medidas básicas de prevenção e controlo de infeções (PCI) no centro de tratamento e conduzir investigações comunitárias sobre água, saneamento e higiene (WaSH). As orientações, protocolos e materiais de informação, educação e comunicação (IEC) também devem ser levados e deixados no terreno. 

Atividades  

  • Participar na pesquisa ativa de casos (ou seja, procurar indivíduos que cumpram a definição aplicável de caso suspeito de cólera entre indivíduos em risco de exposição), explorar possíveis fontes de contaminação e identificar fatores de risco e vias de transmissão. Se possível, testar as fontes de água potável dos doentes para detetar contaminação fecal ou, se a água for declarada como clorada, testar o cloro residual livre (CRL). 
  • Mapear a localização de casas e fontes de água onde se descobriu que as pessoas tinham cólera, para ajudar a identificar áreas de risco, direcionar intervenções e monitorizar a propagação da doença. 
  • Implementar medidas de prevenção e controlo para exposições de risco suspeitas ou potenciais. Se os recursos o permitirem, um estudo de caso-controlo ou CAP pode ajudar a identificá-los. Não retardar a implementação das medidas de prevenção e controlo. 

Avaliação de riscos

  • Avaliar o risco de propagação, a magnitude e o potencial impacto do surto.
    • A probabilidade de transmissão baseia-se em fatores como o acesso a água potável e a melhoria do saneamento; comportamento populacional (incluindo fontes de água utilizadas, cloragem, defecação a céu aberto, lavagem das mãos); condições geográficas, ambientais e climáticas (época de cólera esperada, padrões climáticos esperados, inundações, seca); áreas com elevada densidade populacional (bairros degradados, campos de refugiados ou deslocados internos [PID]) e áreas com elevado trânsito de pessoas ou fluxo de viajantes. 
    • O impacto potencial da doença baseia-se em factores como a preparação para a cólera, o acesso ao tratamento (solução de reidratação oral [SRO] e fluidos intravenosos [IV]), a capacidade dos profissionais de saúde para fazerem a gestão de casos, o material disponível, o comportamento de procura de cuidados de saúde, o estado de desnutrição e a imunidade da população, tal como determinado pela exposição anterior à cólera ou pela vacinação anterior contra a cólera. 

Avaliação das necessidades

  • Identificar os recursos disponíveis (humanos e materiais) e estimar as necessidades com base na avaliação dos riscos. 
  • Comunicar estas estimativas rapidamente às autoridades locais e nacionais para que os recursos necessários possam ser rapidamente adquiridos e/ou fornecidos pelo governo ou parceiros. 
  • Calcular o material necessário, com base nas taxas de incidência cumulativas esperadas e na população (ver Anexo 7 para uma ferramenta de previsão de material a nível distrital). 
    • Nas comunidades rurais com baixa densidade populacional, as taxas de incidência cumulativa podem variar (0,1–2%). 
    • Em locais sobrelotados (como áreas urbanas e campos para deslocados internos e refugiados), as taxas de incidência cumulativa tendem a ser mais elevadas (1–5%). 
    As ações acima referidas podem ser tomadas antes de um surto ser confirmado ou declarado.  

Resposta inicial

  • Durante as investigações no terreno, incluir uma componente de intervenção, como a distribuição de produtos de tratamento de água e SRO, e transmitir mensagens-chave para a educação para a saúde. As intervenções devem ser priorizadas para o agregado familiar e os vizinhos dos indivíduos com cólera. 

Recursos adicionais :

  1. Public Health Surveillance for Cholera – Guidance Document 2024. Global Task Force on Cholera Control. April 2024. https://www.who.int/cholera/task_force/GTFCC-Guidance-cholerasurveillance.pdf?ua=1 https://www.gtfcc.org/wp-content/uploads/2024/04/public-health-surveillance-for-cholera-guidance-document-2024.pdf 
  2. Global Taskforce on Cholera Control. Job Aid: Rapid Diagnostic Test (RDT) for cholera detection. Revised 2024. https://www.gtfcc.org/wp-content/uploads/2022/01/gtfcc-job-aid-rapid-diagnostic-test-for-cholera-detection-en-1.pdf 
  3. World Health Organization – Regional Office for Africa. Technical guidelines for integrated disease surveillance and response in the WHO African Region – Booklet four. 3rd ed. 2019.https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/312364/WHO-AF-WHE-CPI-02.2019-eng.pdf 
  4. World Health Organization. Early warning alert and response (EWAR) in emergencies: an operational guide. 2022. https://www.who.int/publications/i/item/9789240063587